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O discurso do rei

Felipe VI, monarca da Espanha, sinaliza que o MWC pode deixar de ser realizado em Barcelona se a Catalunha insistir com o separatismo em relação ao governo central de Madri; evento foi focado na 5G, mostrou maturidade da IA, mas não trouxe disrupturas para o setor

Sergio Damasceno Silva
6 de março de 2018 - 8h01

Rei Felipe VI sinalizou que, se a Catalunha continuar com a onda separatista, Barcelona poderá até mesmo deixar de sediar o MWC (Crédito: Toni Albir -Pool-Getty Images)

Esqueça os robôs engraçadinhos e as dezenas de marcas de automóveis do ano passado do Mobile World Congress (MWC). O personagem principal foi não foi nada virtual. Ao contrário, foi real: o rei Felipe VI esteve em Barcelona no domingo, para a cerimônia oficial de abertura do congresso, e, sem rodeios, mandou a seguinte mensagem para o MWC, Barcelona e a região da Catalunha: o evento pode sair de Barcelona se a região insistir em querer se tornar independente do governo de Madri. Pelas ruas da cidade, moradores faziam panelaços e gritavam palavras de ordem contra a presença do rei. Várias ruas no entorno da região central (Ramblas, Paseig de Grácia e Grand Vía) foram fechadas ao tráfego para a passagem do monarca da Espanha. Segundo moradores, os panelaços são cotidianos e marca registrada dos moradores que apoiam a separação da Catalunha do resto da Espanha. Mas, mesmo entre os separatistas, há divergências: há duas bandeiras que representam o movimento de desligamento da Catalunha. Uma que defende a separação total, inclusive com saída do eventual país Catalunha da Comunidade Europeia (CE) e outro que quer a independência, mas sem a radicalidade de deixar a CE.

No dia seguinte, segunda-feira 26, abertura oficial do MWC, o rei visitou a feira, da qual participa desde a primeira edição na cidade, há 12 anos. O discurso do rei com a sinalização de que Barcelona pode deixar de sediar o MWC tem um fundamento, sobretudo, econômico. No ano passado, no auge da crise entre Catalunha e Madri, quase 2,5 mil empresas mudaram as sedes das cidades catalãs para outras regiões do país. Barcelona é a segunda cidade mais importante da Espanha, depois de Madri, e também da Europa. A região da Catalunha é responsável por 20% do PIB espanhol e o turismo, que sofreu queda de mais de 30% até o final do ano passado, é uma das principais indústrias, com oito milhões de visitantes anuais.

Para Barcelona, o maior evento móvel do mundo gera 465 milhões de euros (cerca de R$ 1,8 bilhão) e 13 mil empregos diretos. O evento móvel recebe 2,3 mil expositores de quase 200 países. No ano passado, foram mais de 108 mil participantes. O contrato da cidade de Barcelona com o GSMA, que é a entidade que congrega cerca de 800 operadoras e mais de 300 empresas envolvidas com a indústria móvel em todo o mundo e é proprietária do MWC, expira em 2023 e o próprio CEO da associação, John Hoffman, pediu estabilidade para que o evento permaneça na cidade. Entre os concorrentes de Barcelona para sediar o MWC estão a própria capital espanhola, Madri, e Dubai.

Quinta geração (5G)

A 5G avançou em relação ao ano passado; no entanto, a despeito de padrões e redes e até um chip, não foi no MWC que apareceu o primeiro smartphone de quinta geração (Crédito: Sérgio Damasceno)

Neste momento, Barcelona tenta conquistar o futuro centro europeu da tecnologia 5G, que foi, como a inteligência artificial (IA), internet das coisas (IoT), assistentes pessoais e realidade aumentada e virtual (AR e VR, nas siglas em inglês, respectivamente), o foco do MWC 2018. Neste segundo ano em que Meio & Mensagem faz uma cobertura especial do Mobile World Congress, houve algumas mudanças em relação a 2017. As fabricantes de veículos que quase superaram as operadoras no ano passado, vieram de novo. Mas sem o deslumbramento de antes. As redes 5G continuam, como na edição anterior, a orientar operadoras, fabricantes e fornecedores que compõem a cadeia de telecomunicações. Algumas operações comerciais, como AT&T e Swisscom, já foram anunciadas e devem chegar em breve ao usuário. No entanto, o smartphone 5G ainda não chegou. Nem mesmo a Samsung, que fez um lançamento gigante no domingo, antes do MWC começar, trouxe a novidade. A empresa coreana é peça-chave para o desenvolvimento da quinta geração (5G) móvel. Se espera que o celular 5G venha em breve, inclusive antes mesmo do Galaxy S10 (o S9 foi lançado durante o MWC deste ano).

O Brasil e a América Latina, no entanto, passam ao largo dessas estimativas. As primeiras redes 5G latino-americanas deverão se tornar viáveis somente a partir de 2020. E apenas em 2025, daqui a sete anos, poderão ter alguma escala considerável, quando poderão chegar a 45% de cobertura e 52 milhões de usuários. Os dados são do GSMA América Latina. “Quem lançar (a 5G) primeiro vai pagar mais caro. E não me parece tão mal que atrase porque se pode aprender com testes e erros dos demais pode ser até saudável”, afirmou o diretor de competição econômica do GSMA, Serafino Abate. O executivo disse que os países da região, liderados pelo Brasil, estão mais interessados na expansão das redes de quarta (4G) e quarta geração e meia (4,5) que, por ora, atendem as demandas de velocidade. Essas redes cobrem 23% do território latino-americano e deverão chegar a 66% até 2025.

Enquanto se debate a ultravelocidade da 5G (140 vezes mais do que a 4G em laboratório) e suas futuras aplicações para todas as coisas (internet das coisas), a IA tem avançado muito mais rápido do que a velocidade projetada pela quinta geração. Apenas nos dois últimos anos, a IA recebeu aportes de US$ 5 bilhões em investimentos, liderados por empresas como a IBM. Por essas e outras razões, a Telefónica aproveitou o MWC para anunciar a assistente digital Aura, provida de IA. Lançamento esse que foi feito para Espanha, Brasil, Reino Unido, Alemanha, Chile e Argentina. Essa assistente consiste em um app que se conecta a outros assistentes de terceiros como Facebook, Google e Microsoft e permite que os usuários de comuniquem com a rede em tempo real para saber de sua vida com a operadora. A intenção é transformar a maneira como o consumidor se relacionado com a tele e como dirige sua vida digital, ou seja, consumo de dados, fatura, serviços. Em breve, a Aura deverá ser integrado ao Google Assistant (de voz) e com o Cortana, da Microsoft. Essa é uma das respostas da tele ao serviço correlato da Amazon, o Alexa, que permite fazer compras e buscas por conexão móvel.

IoT mais realista

Os carros conectados continuam a liderar o movimento da IoT, como este modelo da BMW, em parceria com a AT&T; no entanto, a IoT depende da estrutura da 5G ainda (Crédito: Sérgio Damasceno)

No MWC 2017, a internet das coisas (IoT) foi a vedete e mais de uma dezena de fabricantes globais de automóveis se apressou para apresentar o futuro dos carros conectados ou autônomos. Este ano, a estratégia mudou um pouco. Mas nem tanto: além da própria Fórmula 1, que trouxe o piloto da McLaren, Fernando Alonso, para divulgar o lançamento de sua plataforma de vídeo on demand, outras fabricantes como o BMW Group resolveram que são plataformas, e não mais apenas montadoras de veículos. O pano de fundo se insere no contexto da IoT, em que os carros autônomos ou conectados são as peças mais evidentes.

Para os executivos que participaram de debates sobre IoT, a expectativa é que os próximos 12 meses sejam um período ativo para as tecnologias móveis de IoT, com novas implantações de rede e a construção de um ecossistema que impulsione esse crescimento.

Em relação à edição de 2017, o MWC mostrou evolução tecnológica — a 5G avançou na definição de padrões, o que é importante para suas implementações comerciais, e a inteligência artificial mudou de patamar, com volume de investimentos que devem repercutir nos próximos anos. No entanto, a disrupção verificada em eventos anteriores não aconteceu este ano. E não houve tecnologia, lançamento ou processo inovador que marcasse o MWC 2018 com destaque.

Não se sabe se o MWC 2019 acontecerá em Barcelona, mas é previsível que, depois dos dois últimos anos, todos os temas debatidos no evento – 5G, IoT, inteligência artificial e realidade aumentada e virtual – terão que caminhar mais ou menos juntos para acontecer. O rei pode não salvar a Catalunha e nem a si mesmo, mas a indústria móvel já sabe exatamente o que fazer para não depender do discurso do monarca.

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